Classificação de Risco no SUS: A Bússola Que Salva Vidas na Emergência
- praticenfgp
- 4 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
O cenário de urgência e emergência no Brasil é desafiador. A sobrecarga e a superlotação dos serviços hospitalares e de pronto atendimento (PA) têm sido fatores decisivos. Nesses ambientes, a ordem de chegada nunca pode ser o critério para definir a assistência, pois a não diferenciação do risco e/ou grau de sofrimento pode levar ao agravamento ou até mesmo ao óbito do indivíduo.
Para combater a fragmentação do cuidado e garantir o acesso com equidade, o Sistema Único de Saúde (SUS) adotou um sistema rigoroso de estratificação de pacientes: o Acolhimento com Classificação de Risco (ACCR).
O Que É o Acolhimento com Classificação de Risco (ACCR)?
O ACCR é um instrumento fundamental, proposto pelo Ministério da Saúde (MS) por meio da Política Nacional de Humanização (PNH), que representa uma das intervenções mais decisivas para reorganizar o atendimento nos serviços de urgência.
O processo de ACCR une dois pilares essenciais:
Acolhimento: Não é apenas um local, mas uma postura ética. Traduz-se na recepção do usuário, ouvindo sua queixa e permitindo que ele expresse suas preocupações, responsabilizando-se integralmente por ele. O acolhimento é uma ação de inclusão que permeia todos os momentos do serviço de saúde.
Classificação de Risco (CR): É uma ferramenta técnica que visa reorganizar a porta de entrada, priorizando os pacientes mais graves para o atendimento. A CR é um processo dinâmico de identificação dos pacientes que necessitam de tratamento imediato, de acordo com o potencial de risco, agravos à saúde ou grau de sofrimento.
É crucial entender que a Classificação de Risco não é um instrumento de diagnóstico de doença. Seu objetivo é, unicamente, determinar a prioridade clínica e hierarquizar o atendimento conforme a gravidade, abandonando a lógica da ordem de chegada.
O Protocolo de Manchester e o Sistema de Cores
Para que a classificação de risco seja padronizada e reproduzível, o Brasil utiliza protocolos estruturados. Mundialmente, existem diversos protocolos (como o Australian Triage Scale - ATS, o Canadian Emergency Department Triage and Acuity Scale - CTAS e o Emergency Severity Index - ESI), mas o Protocolo de Manchester (Manchester Triage System), criado na Inglaterra em 1997, é amplamente utilizado em hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) no território brasileiro, muitas vezes em versões adaptadas.
O Protocolo de Manchester, ou protocolos adaptados, utiliza um sistema de cinco cores associadas a um tempo máximo de espera para o atendimento médico:
Cor | Prioridade | Nome | Tempo Alvo (Máximo) |
Vermelho | Prioridade Máxima | Emergência | 0 minutos (Imediato) |
Laranja | Prioridade Alta | Muito Urgente | 10 ou 15 minutos |
Amarelo | Prioridade Média | Urgente | 60 minutos |
Verde | Prioridade Baixa | Pouco Urgente | 120 minutos |
Azul | Prioridade Mínima | Não Urgente | 240 minutos (ou até 3 a 4 horas) |
Essa classificação colorida ajuda a garantir que os pacientes em risco iminente de morte (Vermelho) sejam atendidos imediatamente. Para pacientes classificados como Verde ou Azul, a informação clara sobre o tempo provável de espera é um objetivo importante do processo de classificação.
Quem Classifica e o Que é Avaliado
O Papel Privativo do Enfermeiro
A classificação de risco e a priorização da assistência é uma atividade privativa do Enfermeiro no âmbito da Equipe de Enfermagem. O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) normatizou essa responsabilidade por meio da Resolução n.º 423/2012 (e posteriormente atualizada pela Resolução nº 661/2021).
Para executar o ACCR, o enfermeiro deve ter:
Treinamento específico para o protocolo adotado pela instituição.
Conhecimento e habilidades para a utilização desses protocolos.
Experiência no atendimento em urgências.
O profissional classificador avalia o paciente por meio de uma escuta qualificada e da análise de parâmetros subjetivos e objetivos. A avaliação é baseada em discriminadores—sinais e sintomas que selecionam o paciente para a prioridade mais alta.
Chaves de Decisão (Critérios de Avaliação)
O Protocolo Catarinense de Acolhimento com Classificação de Risco (PCACR) lista parâmetros indispensáveis que devem ser avaliados:
Risco de Morte, Ausência ou Instabilidade de Sinais Vitais.
Avaliação do Nível de Consciência (utilizando a Escala de Coma de Glasgow - ECG).
Alteração da Pressão Arterial.
Alteração do Padrão Respiratório.
Avaliação da Dor (utilizando escalas como a Escala Visual Analógica - EVA).
Fatores de Risco e Vulnerabilidade: Implica estar atento ao grau de sofrimento físico e psíquico.
Alteração Glicêmica, Queimadura e outros sinais/sintomas específicos.
O enfermeiro deve ser capaz de realizar essa classificação com rapidez e eficiência, seguindo o protocolo adotado. É importante notar que, para garantir a segurança, o tempo médio recomendado pelo COFEN para a realização da classificação de risco é de quatro minutos, com um limite de até 15 classificações por hora.
O sistema de classificação de risco é, portanto, o motor que impulsiona a Rede de Atenção às Urgências (RUE), garantindo que a assistência seja direcionada de forma ética, eficaz e segura. O sucesso do sistema depende da sua aplicação uniforme e da articulação entre todos os serviços da rede.
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