Do Diálogo à Segurança: Como a Abordagem Verbal Pode Evitar a Contenção Física na Prática Assistencial
- praticenfgp
- há 5 horas
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A desescalada verbal, também conhecida como talking-down, é um processo interativo e complexo no qual o paciente em estado de agitação psicomotora (APM) é guiado para um estado de calma e maior controle emocional. Na prática clínica, é considerada a primeira intervenção terapêutica obrigatória, devendo ser tentada antes de qualquer medida invasiva, como a tranquilização farmacológica ou a contenção física.
Para a equipe de enfermagem, dominar essa técnica é essencial para garantir a segurança, reduzir o risco de violência e estabelecer uma aliança terapêutica com o paciente.
Postura e Segurança: A Linguagem Não Verbal
Antes de iniciar o diálogo, o profissional deve estar atento à sua própria linguagem corporal e ao ambiente. A comunicação não verbal compõe grande parte da carga emocional transmitida.
Espaço Pessoal: Mantenha uma distância de segurança de pelo menos dois braços de distância do paciente para evitar que ele se sinta acuado ou interprete o movimento como agressão.
Posicionamento: Nunca vire as costas para um paciente agitado e certifique-se de que tanto você quanto o paciente tenham uma rota de saída desobstruída.
Linguagem Corporal: Evite posturas provocativas ou ameaçadoras, como braços cruzados, mãos escondidas atrás das costas ou contato visual direto, prolongado e intenso.
Composição da Equipe: Recomenda-se que o atendimento não seja feito por um único profissional, mas apenas uma pessoa deve liderar o diálogo para não confundir o paciente.
Os 10 Princípios Fundamentais (Projeto BETA)
As diretrizes baseadas no projeto Best Practices in Evaluation and Treatment of Agitation (BETA) organizam a desescalada em dez domínios técnicos:
Domínio | Ação Técnica |
1. Respeitar o espaço | Manter distância física e garantir saídas fáceis. |
2. Não ser provocativo | Postura relaxada e mãos visíveis. |
3. Contato verbal | Apenas um líder deve falar para estabelecer o vínculo. |
4. Ser conciso | Usar frases curtas e linguagem simples. |
5. Identificar desejos | Perguntar o que o paciente precisa ou está sentindo. |
6. Ouvir atentamente | Praticar a escuta ativa e validar o discurso. |
7. Concordar | Encontrar pontos de verdade ou concordar em discordar. |
8. Estabelecer limites | Informar de forma firme que a violência não é aceitável. |
9. Oferecer opções | Dar escolhas (ex: medicação oral vs. tempo sozinho). |
10. Debriefing | Revisar o evento com o paciente e a equipe após a crise. |
Técnicas de Comunicação Avançadas
Para que a desescalada seja efetiva, a enfermagem pode utilizar ferramentas específicas de persuasão e acolhimento:
A Filosofia do "Sim": Evite respostas negativas diretas. Tente responder afirmativamente sempre que possível (ex: "Sim, podemos conversar sobre isso, mas primeiro precisamos...").
Técnica dos Três Fs (Feel, Felt, Found): Ajuda a criar empatia. "Eu entendo como você se sente (feel). Outros na mesma situação também se sentiam (felt) assim, mas eles perceberam (found) que este remédio ajuda a acalmar".
Ofertas de Conforto: Oferecer água (não quente), cobertores ou algo para comer apela às necessidades humanas básicas e ajuda a construir confiança.
O Mnemônico "AEIOU" no Atendimento
Utilizado em protocolos de suporte (como o SAMU), este guia sistematiza a abordagem:
A (Acolhimento): Postura empática e apresentação clara do profissional.
E (Escuta ativa): Compreender o sofrimento sem julgamentos moralizantes.
I (Identificação): Avaliar fatores de risco e proteção no contexto do paciente.
O (Orientações): Informar sobre os procedimentos e buscar soluções em conjunto.
U (Ultimação): Resumo dos acordos feitos e desfecho imediato do atendimento.
Considerações Finais para a Enfermagem
A desescalada verbal exige treinamento contínuo. É importante notar que, legalmente, o enfermeiro pode prescrever a contenção em protocolos compartilhados, enquanto técnicos e auxiliares executam sob supervisão. No entanto, a contenção física deve ser sempre o último recurso, utilizada apenas quando as técnicas verbais falharem e houver risco iminente de auto ou heteroagressão.
Atenção: Nunca minta para o paciente. Uma vez que a mentira é descoberta, a confiança é destruída e a violência pode escalar rapidamente.
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