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Marcapasso transcutâneo e desfibrilador: quais são as diferenças e qual é a função do enfermeiro?

há 10 minutos
5 min de leitura

Na urgência e emergência, alguns equipamentos são decisivos para salvar vidas. Entre eles, dois costumam gerar dúvidas na prática: o marcapasso transcutâneo e o desfibrilador.


Apesar de muitos monitores multiparamétricos reunirem essas funções no mesmo aparelho, elas não têm a mesma finalidade. O marcapasso transcutâneo é usado para estimular o coração quando ele está batendo de forma muito lenta e ineficaz. Já o desfibrilador é utilizado para aplicar uma descarga elétrica com o objetivo de reverter ritmos cardíacos graves, especialmente em situações de parada cardiorrespiratória com ritmos chocáveis.


Entender essa diferença é essencial para a equipe de enfermagem, principalmente em ambientes como pronto-socorro, sala vermelha, UTI, centro cirúrgico e atendimento pré-hospitalar.



O que é o marcapasso transcutâneo?


O marcapasso transcutâneo, também chamado de marca-passo externo ou pacing transcutâneo, é uma intervenção temporária e não invasiva utilizada para estimular eletricamente o coração através de eletrodos adesivos colocados sobre o tórax do paciente.


Seu objetivo é gerar estímulos elétricos capazes de produzir contrações cardíacas quando o ritmo próprio do paciente está muito lento ou não consegue manter perfusão adequada.


Na prática, ele é usado principalmente em casos de bradicardia sintomática, especialmente quando há sinais de instabilidade, como:


  • hipotensão;

  • rebaixamento do nível de consciência;

  • dor torácica isquêmica;

  • sinais de choque;

  • insuficiência cardíaca aguda;

  • má perfusão periférica.


O marcapasso transcutâneo não “reinicia” o coração. Ele tenta comandar temporariamente o ritmo cardíaco, funcionando como uma ponte até a correção da causa ou até a instalação de um método mais definitivo, como o marcapasso transvenoso ou permanente, quando indicado.



O que é o desfibrilador?


O desfibrilador é um equipamento utilizado para aplicar uma descarga elétrica no coração. Essa descarga tem como objetivo interromper uma atividade elétrica desorganizada e permitir que o sistema elétrico cardíaco retome um ritmo mais eficaz.


A desfibrilação é indicada principalmente em ritmos chocáveis de parada cardiorrespiratória, como:


  • fibrilação ventricular;

  • taquicardia ventricular sem pulso.


Diferente do marcapasso transcutâneo, o desfibrilador não tem a função de manter uma frequência cardíaca contínua. Ele entrega um choque de alta energia em um momento específico, com a intenção de reverter uma arritmia potencialmente fatal.


Além da desfibrilação, alguns aparelhos também permitem cardioversão elétrica sincronizada, utilizada em determinadas taquiarritmias com pulso, quando há instabilidade hemodinâmica. Nesse caso, a descarga é sincronizada com o complexo QRS para reduzir riscos durante o procedimento.



A principal diferença entre os dois


A forma mais simples de entender é:


O marcapasso transcutâneo é usado quando o problema principal é o coração batendo devagar demais e sem perfusão adequada.


O desfibrilador é usado quando o problema principal é uma arritmia grave que precisa ser interrompida por uma descarga elétrica.


Em outras palavras, o marcapasso “estimula” o coração a bater. O desfibrilador “interrompe” uma atividade elétrica caótica ou perigosa para tentar permitir a reorganização do ritmo.



Comparativo prático


Aspecto

Marcapasso transcutâneo

Desfibrilador

Finalidade

Estimular o coração a bater

Reverter arritmias graves

Situação comum de uso

Bradicardia sintomática instável

PCR com FV ou TV sem pulso

Tipo de energia

Estímulos elétricos repetidos

Choque elétrico pontual

Objetivo

Gerar captura elétrica e mecânica

Despolarizar o miocárdio e permitir reorganização do ritmo

Uso contínuo?

Sim, enquanto necessário

Não, é aplicado em choques conforme indicação

Pode estar no mesmo aparelho?

Sim

Sim



Onde entra a função do enfermeiro?


O enfermeiro tem papel fundamental antes, durante e depois do uso desses equipamentos. Sua atuação envolve avaliação clínica, tomada de decisão dentro dos protocolos institucionais, preparo do paciente, manejo seguro do equipamento, monitorização contínua e registro adequado da assistência.

Na desfibrilação, a Resolução Cofen nº 704/2022 permite à equipe de enfermagem a utilização do desfibrilador externo automático, o DEA. Na indisponibilidade do DEA, no âmbito da equipe de enfermagem, o manejo do desfibrilador manual para ministrar o choque elétrico é privativo do enfermeiro.


Isso significa que o enfermeiro precisa estar preparado para reconhecer ritmos, identificar sinais de parada cardiorrespiratória, coordenar ações com a equipe e atuar rapidamente quando a desfibrilação for indicada.



Função do enfermeiro na desfibrilação


Na desfibrilação, a prioridade é tempo. Quanto maior o atraso na identificação do ritmo chocável e na aplicação do choque, menores são as chances de reversão.


Entre as principais responsabilidades do enfermeiro, estão:


  • reconhecer rapidamente a parada cardiorrespiratória;

  • iniciar ou coordenar as manobras de RCP;

  • acionar a equipe de emergência;

  • conectar o monitor/desfibrilador;

  • identificar ritmos chocáveis, quando habilitado e conforme protocolo;

  • garantir segurança da equipe durante o choque;

  • manejar o desfibrilador manual quando indicado, respeitando normas e protocolos;

  • orientar a equipe sobre afastamento antes da descarga;

  • retomar imediatamente a RCP após o choque;

  • monitorar resposta clínica e ritmo cardíaco;

  • registrar horários, ritmos identificados, choques realizados, energia utilizada e resposta do paciente.


Além disso, o enfermeiro também tem responsabilidade na verificação funcional do equipamento, organização do carrinho de emergência, conferência de pás, cabos, eletrodos, bateria e materiais necessários para atendimento seguro.



Função do enfermeiro no marcapasso transcutâneo


No uso do marcapasso transcutâneo, o enfermeiro também tem papel central. Esse procedimento costuma ocorrer em pacientes instáveis, e cada detalhe influencia diretamente a segurança da assistência.


Entre as atribuições do enfermeiro, destacam-se:


  • reconhecer sinais de bradicardia sintomática e instabilidade;

  • monitorizar o paciente continuamente;

  • preparar o equipamento e os eletrodos;

  • posicionar corretamente as pás ou adesivos multifuncionais, conforme orientação do fabricante e protocolo institucional;

  • acompanhar os parâmetros definidos pela equipe médica ou pelo protocolo;

  • observar se há captura elétrica e mecânica;

  • avaliar pulso, pressão arterial, nível de consciência e perfusão;

  • preparar suporte ventilatório e acesso venoso, se necessário;

  • administrar medicações conforme prescrição ou protocolo;

  • avaliar dor e desconforto do paciente;

  • manter comunicação constante com a equipe;

  • registrar parâmetros, resposta clínica e intercorrências.


Um ponto essencial: não basta olhar apenas o monitor. No marcapasso transcutâneo, é necessário avaliar se há captura mecânica, ou seja, se o estímulo elétrico está gerando contração cardíaca efetiva e melhora da perfusão. Por isso, a avaliação clínica do paciente continua sendo indispensável.



Cuidados de enfermagem importantes


Tanto no uso do marcapasso transcutâneo quanto do desfibrilador, a segurança precisa estar no centro da assistência.


Alguns cuidados importantes incluem:


  • conhecer o equipamento disponível na unidade;

  • verificar se o aparelho está carregado e funcionando;

  • checar cabos, pás, eletrodos e bateria;

  • manter os eletrodos bem aderidos à pele;

  • remover excesso de umidade ou oleosidade da pele, quando possível;

  • evitar posicionamento inadequado dos adesivos;

  • garantir que ninguém esteja tocando o paciente no momento do choque;

  • manter monitorização contínua;

  • registrar todo o atendimento no prontuário;

  • seguir os protocolos institucionais;

  • manter capacitação periódica da equipe.


Em emergências cardiovasculares, o equipamento ajuda, mas quem salva é a equipe treinada, rápida e organizada.



Por que essa diferença importa na prática?


Confundir marcapasso transcutâneo com desfibrilador pode atrasar condutas importantes. Um paciente com bradicardia instável pode precisar de estímulo elétrico contínuo. Já um paciente em fibrilação ventricular precisa de desfibrilação imediata.


São situações diferentes, com objetivos diferentes e respostas esperadas diferentes.


Para o enfermeiro, dominar essa diferença não é apenas conhecimento teórico. É uma competência prática que influencia diretamente a segurança do paciente, a organização da equipe e o desfecho do atendimento.



Conclusão


O marcapasso transcutâneo e o desfibrilador são recursos essenciais no atendimento cardiovascular de emergência, mas não são a mesma coisa.


O marcapasso transcutâneo é indicado para estimular o coração em situações de bradicardia sintomática e instável. O desfibrilador é indicado para reverter ritmos graves, especialmente fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso.


A atuação do enfermeiro envolve reconhecimento rápido, preparo do equipamento, execução segura conforme protocolos, monitorização contínua, organização da equipe e registro adequado.


Mais do que saber apertar botões, o enfermeiro precisa entender o que está acontecendo com o paciente, qual intervenção é indicada e quais cuidados garantem uma assistência segura e eficaz.

 

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