O enfermeiro pode passar o marcapasso transcutâneo?
- praticenfgp
- há 15 horas
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O marcapasso transcutâneo é um recurso utilizado em situações de emergência, especialmente diante de bradiarritmias graves, instabilidade hemodinâmica e risco iminente de deterioração clínica. Por ser uma intervenção de alta complexidade, ainda existem muitas dúvidas sobre o papel da enfermagem nesse procedimento.
Afinal, o enfermeiro pode passar o marcapasso transcutâneo?
A resposta exige cuidado: o enfermeiro pode atuar no preparo, instalação, manejo, monitorização e acompanhamento do paciente em uso de marcapasso transcutâneo, desde que esteja capacitado, amparado por protocolo institucional e inserido em uma equipe assistencial organizada. No entanto, a indicação clínica do procedimento e a definição dos parâmetros terapêuticos devem seguir prescrição médica, protocolo assistencial ou decisão da equipe responsável pelo atendimento de emergência.
O que é o marcapasso transcutâneo?
O marcapasso transcutâneo é uma forma temporária e não invasiva de estimulação cardíaca. Ele utiliza eletrodos adesivos posicionados no tórax do paciente, conectados a um equipamento capaz de gerar impulsos elétricos para estimular a contração cardíaca.
É uma medida utilizada, geralmente, como ponte até a estabilização do paciente ou até que seja possível realizar uma intervenção definitiva, como o marcapasso transvenoso ou definitivo, quando indicado.
Na prática, ele pode ser necessário em situações como bradicardia sintomática grave, bloqueios atrioventriculares avançados, instabilidade hemodinâmica associada à baixa frequência cardíaca e ausência de resposta adequada às medidas iniciais.
Onde entra a competência do enfermeiro?
O enfermeiro tem respaldo legal para prestar cuidados diretos a pacientes graves com risco de vida e executar cuidados de maior complexidade técnica que exigem conhecimento científico e capacidade de tomada de decisão imediata, conforme previsto na Lei nº 7.498/1986 e no Decreto nº 94.406/1987.
Além disso, a Resolução Cofen nº 713/2022 reforça a atuação do enfermeiro no Suporte Avançado de Vida, incluindo ações relacionadas à assistência em situações críticas e de emergência, desde que o profissional esteja capacitado e respaldado por protocolos institucionais.
Isso significa que, em uma situação de emergência, o enfermeiro não é apenas um executor passivo.
Ele participa ativamente da avaliação, organização da assistência, preparo do equipamento, segurança do procedimento, monitorização contínua e identificação precoce de complicações.
O enfermeiro pode indicar o marcapasso transcutâneo?
Aqui está o ponto que precisa ser bem delimitado.
A indicação terapêutica do marcapasso transcutâneo, assim como a definição da frequência, corrente e condutas médicas associadas, deve seguir avaliação médica, prescrição, protocolo institucional ou diretriz de atendimento adotada pelo serviço.
O enfermeiro pode reconhecer a gravidade, identificar sinais de deterioração, iniciar fluxos institucionais, preparar o equipamento e atuar tecnicamente no procedimento. Mas não deve assumir como ato isolado a indicação médica do uso do marcapasso.
Essa diferença é essencial para proteger o paciente, o profissional e a instituição.
Por que essa atuação exige capacitação?
O marcapasso transcutâneo não é apenas “colar as pás e ligar o aparelho”. O profissional precisa compreender eletrocardiograma, ritmos cardíacos, instabilidade hemodinâmica, funcionamento do desfibrilador, segurança elétrica, posicionamento correto dos eletrodos e sinais de resposta efetiva.
Além disso, é necessário reconhecer que a captura elétrica no monitor não significa, necessariamente, melhora clínica. O paciente precisa ser avaliado como um todo: pulso, pressão arterial, perfusão, nível de consciência, oxigenação e sinais de baixo débito.
Um erro comum é olhar apenas para o traçado do monitor e esquecer a resposta hemodinâmica. Na emergência, monitor não substitui avaliação clínica.
Cuidados de enfermagem durante o uso do marcapasso transcutâneo
Durante o procedimento, a equipe de enfermagem deve manter vigilância contínua. Alguns cuidados são indispensáveis:
Garantir o posicionamento adequado dos eletrodos
O posicionamento incorreto pode comprometer a efetividade da estimulação. Por isso, é fundamental seguir a orientação do fabricante, o protocolo institucional e a rotina do serviço.
Monitorar a resposta clínica
A equipe deve avaliar frequência cardíaca, pressão arterial, saturação, perfusão periférica, nível de consciência e presença de sinais de baixo débito.
Observar captura elétrica e mecânica
A captura elétrica aparece no monitor, mas a captura mecânica precisa ser confirmada pela presença de pulso e melhora hemodinâmica.
Avaliar dor e desconforto
A estimulação transcutânea pode ser desconfortável. O enfermeiro deve reconhecer esse desconforto, comunicar a equipe e contribuir para medidas de conforto e segurança conforme prescrição.
Registrar o procedimento
O registro deve incluir horário de instalação, motivo da indicação, parâmetros utilizados conforme prescrição/protocolo, resposta do paciente, intercorrências e condutas realizadas.
Manter preparo para deterioração
O paciente em uso de marcapasso transcutâneo é grave. A equipe deve manter material de emergência disponível e estar preparada para intervenções imediatas.
O papel do protocolo institucional
Para que a atuação seja segura, o serviço precisa ter protocolos claros. Esses protocolos devem definir quando acionar a equipe médica, quais profissionais podem manusear o equipamento, como preparar o paciente, como posicionar os eletrodos, quais registros devem ser feitos e como conduzir intercorrências.
A existência de protocolo não elimina a necessidade de capacitação. Pelo contrário: protocolo sem treinamento vira documento esquecido. O enfermeiro precisa conhecer o equipamento disponível no serviço e treinar periodicamente situações críticas.
Então, qual é o limite da enfermagem?
O limite está em diferenciar assistência de enfermagem de alta complexidade de ato médico.
O enfermeiro pode participar do manejo do marcapasso transcutâneo, preparar, instalar, operar o equipamento conforme protocolo ou prescrição, monitorar o paciente e conduzir os cuidados de enfermagem necessários.
Mas a decisão terapêutica, a indicação clínica e a definição dos parâmetros devem estar alinhadas à prescrição médica, protocolo institucional ou fluxo assistencial validado pelo serviço.
Na prática, o enfermeiro precisa ter conhecimento suficiente para reconhecer a urgência, agir com rapidez, proteger o paciente e trabalhar de forma integrada com a equipe.
Conclusão
O marcapasso transcutâneo é uma intervenção de emergência que exige preparo técnico, raciocínio clínico e atuação multiprofissional. O enfermeiro tem papel essencial nesse processo, especialmente por estar à beira-leito, reconhecendo alterações, preparando o procedimento, monitorando a resposta e garantindo a continuidade segura da assistência.
Essa atuação encontra respaldo na Lei nº 7.498/1986, no Decreto nº 94.406/1987 e na Resolução Cofen nº 713/2022, desde que respeitados os limites profissionais, os protocolos institucionais, a capacitação técnica e a prescrição ou indicação médica quando necessária.
Mais do que saber “passar” o marcapasso, o enfermeiro precisa entender quando o paciente está grave, quais riscos estão envolvidos, como o equipamento funciona e quais cuidados devem ser mantidos durante todo o procedimento.
Na enfermagem de alta performance, não basta executar técnica. É preciso compreender o que está sendo feito, por que está sendo feito e como garantir segurança ao paciente em cada etapa do cuidado.
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