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O Papel do Enfermeiro no Pós-Operatório Ortopédico

O período pós-operatório (PO) de cirurgias ortopédicas é uma fase crucial que determina o sucesso da intervenção e a rapidez da reabilitação do paciente. Neste cenário, o enfermeiro desempenha um papel indispensável no gerenciamento integral do cuidado, atuando para prevenir complicações e otimizar a recuperação funcional.


A assistência de enfermagem ao paciente ortopédico deve ser individualizada e sistematizada, iniciando-se na internação e estendendo-se até a alta terapêutica.



Principais Focos do Cuidado de Enfermagem no Pós-Operatório


O PO divide-se classicamente em Imediato (POI), que vai da alta da Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA) até as primeiras 48 horas, e Mediato, que se estende até a alta hospitalar. As ações de enfermagem são organizadas para atender às necessidades complexas do paciente durante essas fases.


1. Controle Rigoroso da Dor (Dor Aguda)


A dor aguda é um diagnóstico de enfermagem extremamente frequente no POI, sendo identificada em 100% dos pacientes em um estudo sobre cirurgias eletivas. A dor é uma sensação íntima e exclusiva que, se não tratada adequadamente, afeta a qualidade de vida e a recuperação geral do paciente.


As intervenções de enfermagem para dor incluem:


  • Avaliação Completa: Realizar uma avaliação completa da dor (local, características, início, duração, intensidade/gravidade), investigando também indicadores não verbais de desconforto, especialmente em pacientes com dificuldades de comunicação.

  • Comunicação Terapêutica: Reconhecer a experiência de dor e transmitir aceitação da resposta do paciente.

  • Controle Ambiental: Monitorar fatores ambientais que possam influenciar a dor.

  • Tratamento Farmacológico: Administrar analgésicos conforme prescrição e reavaliar o paciente após a administração.


A dor aguda está diretamente relacionada a outros déficits comuns no PO ortopédico, como a mobilidade física prejudicada e o déficit no autocuidado (banho, vestir-se, higiene íntima).


2. Prevenção de Infecções e Cuidado com a Ferida Operatória (FO)


O risco de infecção é um diagnóstico de risco presente em 100% dos pacientes no POI de cirurgias eletivas. O ato cirúrgico rompe a barreira epitelial o que facilita o processo infeccioso. A infecção relacionada à fratura (Fracture-related infection - FRI) é uma complicação grave do trauma musculoesquelético.


O enfermeiro deve:

  • Monitorar Sinais Vitais: Controlar rigorosamente parâmetros vitais.

  • FO e Drenos: Observar e registrar o aspecto da ferida operatória, incluindo a presença de sangramento. O manejo de drenos (volume e aspecto do exsudato) é crucial para evitar hematomas que possam interferir na cicatrização.

  • Monitoramento Neurovascular: Avaliar a perfusão periférica, motricidade e sensibilidade do membro operado para detectar complicações (cianose, edema, calor, alteração de sensibilidade).

  • Antimicrobianos: A profilaxia antimicrobiana cirúrgica é fundamental. No PO, o enfermeiro deve estar atento à prescrição de antibióticos; a responsabilidade de prescrever no PO mediato geralmente cabe à equipe cirúrgica, e a comunicação clara é vital para evitar o uso desnecessário de antibióticos.


Em Casos de Reconstrução Complexa (Retalhos):


O monitoramento da viabilidade do retalho é considerado o cuidado fundamental e essencial no pós-operatório, sendo um preditor importante de sucesso ou falha do procedimento.

  • Monitoramento Clínico: Observar a coloração, temperatura, perfusão e turgor do retalho, especialmente nas primeiras 72 horas. Este monitoramento é realizado por cirurgiões e enfermeiros treinados.


3. Mobilidade e Posicionamento: Recuperação Funcional e Segurança


O diagnóstico de mobilidade física prejudicada é altamente prevalente no POI, geralmente relacionada à dor e à perda de integridade de estruturas ósseas.


As estratégias de mobilidade e segurança incluem:

  • Posicionamento Adequado: Manter o membro operado em posição anatômica e, frequentemente, elevado, visando diminuir o edema e a dor, facilitando o retorno venoso e linfático. É fundamental evitar a compressão e o tracionamento das áreas de anastomose (em casos de retalhos).

  • Prevenção de Lesões por Pressão: O risco de quedas e integridade da pele prejudicada são preocupações importantes. É necessário monitorar áreas de pressão (como o calcâneo em dispositivos de tração).

  • Mobilização Precoce: Estimular movimentos ativos e passivos das articulações livres (não imobilizadas), pois isso previne complicações como edema e dor.


4. O Cuidado Integral e a Transição


O enfermeiro não foca apenas na lesão, mas na avaliação integral do paciente, contemplando as esferas clínica, emocional e social.

  • Autocuidado: Déficits no autocuidado são comuns. O enfermeiro assiste na higiene e estimula a independência do paciente.

  • Gastrointestinal: A constipação é um risco elevado devido à imobilidade e alterações dietéticas. As intervenções incluem monitorar, orientar sobre ingestão hídrica e alimentos ricos em fibras.

  • Educação em Saúde e Alta: A transição de cuidados para o domicílio é um momento crucial. A educação em saúde deve ser contínua e inclui orientações sobre:

    • Cuidados com a FO (troca de curativo, reconhecimento de complicações).

    • Uso correto de medicamentos e anticoagulantes.

    • Uso de dispositivos de apoio (muletas, imobilizador).

    • Posicionamento correto do membro.

    • Ações de autocuidado e reconhecimento de sinais de alerta.


O planejamento de alta realizado pelo enfermeiro assegura a continuidade dos cuidados e o sucesso terapêutico.



Conclusão: A Importância do Protocolo no Cuidado Ortopédico


O cuidado pós-operatório ortopédico exige conhecimento específico, foco em ações preventivas e abordagem sistemática. Embora a padronização dos protocolos de cuidados no PO ortopédico ainda seja controversa entre grandes centros, a adoção de um protocolo específico é uma ferramenta importante para nortear o enfermeiro, reduzindo a incidência de complicações e falhas.


O enfermeiro, por permanecer mais tempo inserido no cotidiano do cuidado, é o profissional mais apto a realizar a avaliação constante, a monitorização rigorosa e a educação em saúde que garantem a segurança e a recuperação plena do paciente cirúrgico ortopédico. O sucesso da cirurgia depende da cooperação coordenada de toda a equipe, incluindo a experiência da enfermagem no manejo pós-operatório.


O cuidado de enfermagem, como a bússola que guia o navio de volta ao porto após a tempestade, garante que o paciente, após o trauma cirúrgico, encontre o caminho mais seguro e rápido para a recuperação funcional. 

 

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