Prevenção de Lesões por Pressão Causadas por Dispositivos Médicos: Guia Prático de Enfermagem
Os dispositivos respiratórios — como tubos endotraqueais, cânulas de traqueostomia, máscaras de Ventilação Não Invasiva (VNI) e sensores de monitoração — são ferramentas vitais e indispensáveis no suporte avançado à vida. No entanto, equipamentos utilizados no fornecimento de oxigênio e no manejo das vias aéreas estão entre os principais responsáveis pelas mais altas taxas de lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos (LPDM) em pacientes críticos.
A aplicação de pressão contínua, o atrito e o cizalhamento exercidos por tiras, cadarços, bordas rígidas de máscaras e o próprio balonete (cuff) sobre a pele e as mucosas podem comprometer a perfusão tecidual local, levando a eritemas, úlceras dolorosas, isquemia e estenoses.
Abaixo, reunimos as principais estratégias de prevenção baseadas em evidências para orientar a prática diária da equipe de enfermagem.
1. Mapeamento dos Locais de Risco
Para intervir precocemente, a equipe de enfermagem deve inspecionar rotineiramente os pontos anatômicos de maior suscetibilidade:
Ventilação Mecânica Invasiva (VMI): Lábios, comissura labial, língua, asas do nariz, região posterior das orelhas (locais de apoio de fitas e cadarços) e a mucosa traqueal interna (pelo cuff).
Ventilação Não Invasiva (VNI): Ponte e dorso nasal, testa, bochechas e queixo (pontos de pressão direta de máscaras nasais e oronasais).
Traqueostomia: Pele periestomal e região posterior do pescoço (pela fixação).
Outros Dispositivos: Extremidades digitais e lóbulos de orelhas (por sensores de oximetria de pulso).
2. Prevenção de Lesões no Manejo do Tubo Endotraqueal e Traqueostomia
Controle Rigoroso da Pressão do Cuff (Balonete)
Faixa Terapêutica Segura: A pressão do balonete do tubo endotraqueal ou da cânula de traqueostomia deve ser aferida e mantida estritamente entre 20 e 30 cmH²O (aproximadamente 22 mmHg).
Riscos da Hiperinsuflação: Pressões que excedem a pressão de perfusão traqueal (acima de 30 cmH²O) causam isquemia local da mucosa, com risco de necrose, ulceração, perda progressiva de cartilagem, traqueomalácia e estenose traqueal.
Aferição Sistemática: A mensuração deve ser realizada periodicamente (de 3 vezes ao dia a cada 6 a 8 horas) utilizando um manômetro aneroide específico (cufômetro).
Fixação Adequada e Proteção de Pele
Ajuste da Tensão: Cadarços ou fixadores muito apertados causam fissuras e lesões labiais e auriculares. Cadarços frouxos permitem a movimentação do tubo, gerando atrito e risco de extubação não planejada.
Proteção Cutânea: Aplique coxins de gaze ou placas de hidrocoloide sob as áreas de contato do cadarço nas bochechas, comissuras labiais e orelhas.
Alternância da Posição do Tubo: A posição da rima do tubo na boca deve ser alternada entre o centro e as laterais (direita e esquerda) para evitar pontos contínuos de pressão na rima labial.
Troca em Dupla: A troca diária da fixação e da proteção deve ser realizada obrigatoriamente por duas pessoas para prevenir a movimentação ou extubação acidental.
3. Cuidados e Prevenção de Lesões na Ventilação Não Invasiva (VNI)
As interfaces não invasivas causam desconforto e úlceras por pressão nos pontos de apoio facial, especialmente quando aplicadas de forma contínua:
Aplicação Preventiva de Hidrocoloide: Aplique curativos protetores do tipo "pele artificial" (placas de hidrocoloide) sobre o dorso e a ponte nasal antes de ajustar a máscara.
Ajuste Certo das Tiras: A máscara deve ser fixada suavemente, permitindo a passagem de pelo menos um a dois dedos entre a fita de fixação e a pele do paciente. O aperto excessivo não elimina vazamentos e aumenta drasticamente o dano isquêmico.
Rodízio e Alternância de Interfaces: Em pacientes que necessitam de VNI por mais de 24 a 48 horas, recomenda-se alternar os modelos de máscara (ex.: alternar entre oronasal, facial total ou capacete/helmet) para diversificar os pontos de apoio na face e prevenir necrose.
4. Cuidados com Dispositivos Acessórios e Higiene
Sensores de Oximetria de Pulso: O sensor deve ser mantido sem compressão excessiva. É necessário reposicioná-lo e alternar o local de fixação nas extremidades digitais periodicamente para evitar isquemia tecidual local.
Contenções Físicas do Leito: Caso o paciente necessite de restrição nos membros para prevenir a autoextubação, utilize faixas largas e acolchoadas, avaliando e aliviando os locais de contato a cada 2 horas.
Higiene Oral e Cutânea: Realize a higiene oral a cada 4 a 6 horas com clorexidina a 0,12% e escovação macia da cavidade oral e língua, aplicando lubrificantes labiais para prevenir ressecamentos e lacerações.
Considerações Finais
A prevenção de lesões por pressão decorrentes de dispositivos médicos é uma das metas mais importantes da segurança do paciente na UTI e emergência. A incorporação dessas práticas pela equipe de enfermagem garante não apenas a eficácia do suporte ventilatório, mas também a integridade física e a humanização do cuidado ao paciente crítico.
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