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As Principais Emergências Pediátricas: Um Guia Rápido de Reconhecimento e Resposta

Prestar assistência a crianças em situações de crise exige conhecimento especializado e um conjunto de competências técnicas avançadas, pois as crianças não são adultos em ponto pequeno. O atendimento de emergência pediátrica é crucial, dado que a maior parte dos óbitos nos primeiros cinco anos de vida concentra-se no primeiro ano, sendo a prematuridade, a asfixia e as infecções as principais causas.


É fundamental que os profissionais de saúde e cuidadores estejam preparados, pois a Parada Cardiorrespiratória (PCR) em pediatria é raramente um evento súbito, sendo, na maioria das vezes, o resultado de uma deterioração progressiva da função respiratória e circulatória.



1. O Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP)


O primeiro passo para determinar a gravidade de uma criança é através do Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP), uma ferramenta de observação rápida, realizada em 10 a 15 segundos, que não requer o toque na vítima. O TAP tem como objetivo principal definir a urgência da intervenção e é composto por três componentes:


  1. Aparência: Reflete a eficácia da oxigenação, ventilação e perfusão cerebral. É avaliada pela mnemónica TICLS (Tônus, Interatividade, Consolo, Olhar, e Discurso/Fala/Choro).


  2. Trabalho Respiratório: Indicador da capacidade de oxigenação e ventilação, observando-se sons respiratórios anormais (estridor, pieira) e sinais de esforço ventilatório (adejo nasal, tiragem, ou posicionamento anormal, como a posição de tripé ou "fungador").


  3. Perfusão Periférica (Circulação): Avalia a qualidade da circulação nos órgãos vitais, analisando a coloração da pele (pálida, cianótica, marmoreada) e a presença de hemorragia óbvia.


Uma aparência anormal, isolada ou combinada com alterações no trabalho respiratório ou perfusão, é sempre um sinal de gravidade e indica uma vítima potencialmente crítica.



2. Emergências Respiratórias


A principal causa de PCR em crianças é a hipoxia, resultado da insuficiência respiratória,. A obstrução das vias aéreas é uma problemática com alta morbidade.


Emergência

Faixa Etária Comum

Sintomas/Características Chave

Asma Aguda

Infância/Adolescência

Pieira (som tipo "chiar de chaleira"), sibilância, dispneia, taquipneia e taquicardia,. É causada por estreitamento dos brônquios.

Bronquiolite Viral Aguda

Crianças < 2 anos

Infecção respiratória aguda, causada frequentemente pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR). Sintomas como tosse persistente, taquipneia, e sinais de desidratação.

Laringite Viral Aguda (Crupe)

6 meses a 3 anos

Tosse laríngea ("tosse de cão") e estridor (mais comum na inspiração), com rouquidão. Os sintomas podem piorar em ambientes quentes.

Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE)

Todas as idades

Se a obstrução for grave, o paciente tem dificuldade respiratória súbita, não consegue tossir ou emitir sons.



3. Crises Convulsivas e Condições Associadas


As convulsões ocorrem devido a descargas elétricas anormais de neurônios. A causa mais comum em pediatria é a febre.


  • Crise Convulsiva Febril: É um evento benigno que ocorre na vigência de febre, afetando crianças entre 6 e 60 meses. A crise simples dura menos de 15 minutos e não está associada a déficits focais.


  • Estado de Mal Epiléptico (EME): Caracteriza-se por uma crise epiléptica prolongada, que pode durar acima de 30 minutos ou mais de 5 minutos, resultando em complicações sistêmicas. O tratamento inicial inclui a garantia de via aérea pérvia, oxigênio suplementar e administração de benzodiazepínicos (diazepam ou midazolam).


  • Apresentação Clínica: Em recém-nascidos e lactentes, as convulsões podem ser subtis, manifestando-se por movimentos de sucção ou um olhar vago.


  • Febre: É um sintoma comum. Considera-se febre a partir de 38ºC (retal) ou 37,6ºC (axilar). Febre em lactentes com menos de 3 meses, febre superior a 40ºC ou associada a manchas no corpo são sinais de alarme.



4. Choque e Anafilaxia


A anafilaxia é uma síndrome multissistêmica aguda e potencialmente fatal, causada pela liberação repentina de mediadores de mastócitos, frequentemente em resposta a alimentos ou drogas.


  • Sinais de Gravidade: O risco de vida na anafilaxia reside no edema de laringe (estridor), hipotensão arterial (choque) e broncoespasmo.


  • Conduta Inicial: A abordagem inicial envolve a remoção do estímulo desencadeante, monitorização, fornecimento de oxigênio suplementar e a administração imediata de epinefrina via intramuscular (IM) no vasto lateral da coxa, podendo ser repetida.


  • Choque Séptico: É uma resposta imunológica extrema a uma infeção. No choque séptico refratário a fluidos, é aconselhável usar epinefrina ou norepinefrina como drogas vasoativas iniciais. A meningococcemia é uma infecção grave que pode evoluir para choque séptico, sendo as petéquias um sinal clássico.



5. Atendimento a Traumas e Intoxicações


As emergências por trauma e intoxicação são frequentes, especialmente em crianças pequenas devido à sua curiosidade e falta de noção de perigo.


  • Traumatismo Cranioencefálico (TCE): É a principal causa traumática de morbimortalidade. Sua gravidade é classificada pela Escala de Coma de Glasgow (ECG).


  • Trauma Abdominal: É a terceira região anatômica mais afetada por lesões graves em crianças, sendo a maioria dos traumas contusos (acidentes veiculares e quedas).


  • Trauma Dentário (LDTs): Frequente em 2 a 6 anos. Dentes decíduos avulsionados não devem ser reimplantados. Lesões como avulsão ou fratura de raiz são consideradas de gravidade alta e requerem atendimento imediato.


  • Queimaduras: Crianças menores de cinco anos têm as maiores taxas de mortalidade devido à menor espessura da pele. Considera-se um grande queimado quando mais de 10% da superfície corporal está comprometida.


  • Intoxicações: Agudas e involuntárias são comuns, envolvendo fármacos (paracetamol, antidepressivos) e produtos domésticos. A intoxicação alcoólica e medicamentosa voluntária são destaques em adolescentes.



6. Suporte Avançado de Vida em Pediatria


A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) visa a manutenção da vida por meio do estabelecimento da via aérea, ventilação e circulação.


  • Ventilação de Resgate: Se a criança ou bebê tiver pulso palpável (FC ≥ 60 bpm) mas a respiração estiver ausente ou inadequada, deve-se fornecer uma ventilação a cada 2 ou 3 segundos (20 a 30 respirações por minuto).


  • Epinefrina (Adrenalina): Para ritmos não chocáveis (Assistolia e Atividade Elétrica Sem Pulso - AESP), é aconselhável administrar a dose inicial de epinefrina em até 5 minutos após o início das compressões torácicas para melhorar as taxas de sobrevivência.


  • Desfibrilador Externo Automático (DEA): Em crianças até 8 anos, deve-se utilizar um DEA com sistema atenuador de corrente ou eletrodos pediátricos, se disponíveis, aplicando menor energia.


Como um rio que precisa de uma nascente limpa e um curso bem mapeado, o cuidado pediátrico de emergência requer prevenção (nascimento seguro) e um sistema de atendimento rápido e preciso para garantir que o fluxo da vida continue com saúde e segurança.


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