As Principais Emergências Pediátricas: Um Guia Rápido de Reconhecimento e Resposta
- praticenfgp
- há 11 horas
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Prestar assistência a crianças em situações de crise exige conhecimento especializado e um conjunto de competências técnicas avançadas, pois as crianças não são adultos em ponto pequeno. O atendimento de emergência pediátrica é crucial, dado que a maior parte dos óbitos nos primeiros cinco anos de vida concentra-se no primeiro ano, sendo a prematuridade, a asfixia e as infecções as principais causas.
É fundamental que os profissionais de saúde e cuidadores estejam preparados, pois a Parada Cardiorrespiratória (PCR) em pediatria é raramente um evento súbito, sendo, na maioria das vezes, o resultado de uma deterioração progressiva da função respiratória e circulatória.
1. O Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP)
O primeiro passo para determinar a gravidade de uma criança é através do Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP), uma ferramenta de observação rápida, realizada em 10 a 15 segundos, que não requer o toque na vítima. O TAP tem como objetivo principal definir a urgência da intervenção e é composto por três componentes:
Aparência: Reflete a eficácia da oxigenação, ventilação e perfusão cerebral. É avaliada pela mnemónica TICLS (Tônus, Interatividade, Consolo, Olhar, e Discurso/Fala/Choro).
Trabalho Respiratório: Indicador da capacidade de oxigenação e ventilação, observando-se sons respiratórios anormais (estridor, pieira) e sinais de esforço ventilatório (adejo nasal, tiragem, ou posicionamento anormal, como a posição de tripé ou "fungador").
Perfusão Periférica (Circulação): Avalia a qualidade da circulação nos órgãos vitais, analisando a coloração da pele (pálida, cianótica, marmoreada) e a presença de hemorragia óbvia.
Uma aparência anormal, isolada ou combinada com alterações no trabalho respiratório ou perfusão, é sempre um sinal de gravidade e indica uma vítima potencialmente crítica.
2. Emergências Respiratórias
A principal causa de PCR em crianças é a hipoxia, resultado da insuficiência respiratória,. A obstrução das vias aéreas é uma problemática com alta morbidade.
Emergência | Faixa Etária Comum | Sintomas/Características Chave |
Asma Aguda | Infância/Adolescência | Pieira (som tipo "chiar de chaleira"), sibilância, dispneia, taquipneia e taquicardia,. É causada por estreitamento dos brônquios. |
Bronquiolite Viral Aguda | Crianças < 2 anos | Infecção respiratória aguda, causada frequentemente pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR). Sintomas como tosse persistente, taquipneia, e sinais de desidratação. |
Laringite Viral Aguda (Crupe) | 6 meses a 3 anos | Tosse laríngea ("tosse de cão") e estridor (mais comum na inspiração), com rouquidão. Os sintomas podem piorar em ambientes quentes. |
Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE) | Todas as idades | Se a obstrução for grave, o paciente tem dificuldade respiratória súbita, não consegue tossir ou emitir sons. |
3. Crises Convulsivas e Condições Associadas
As convulsões ocorrem devido a descargas elétricas anormais de neurônios. A causa mais comum em pediatria é a febre.
Crise Convulsiva Febril: É um evento benigno que ocorre na vigência de febre, afetando crianças entre 6 e 60 meses. A crise simples dura menos de 15 minutos e não está associada a déficits focais.
Estado de Mal Epiléptico (EME): Caracteriza-se por uma crise epiléptica prolongada, que pode durar acima de 30 minutos ou mais de 5 minutos, resultando em complicações sistêmicas. O tratamento inicial inclui a garantia de via aérea pérvia, oxigênio suplementar e administração de benzodiazepínicos (diazepam ou midazolam).
Apresentação Clínica: Em recém-nascidos e lactentes, as convulsões podem ser subtis, manifestando-se por movimentos de sucção ou um olhar vago.
Febre: É um sintoma comum. Considera-se febre a partir de 38ºC (retal) ou 37,6ºC (axilar). Febre em lactentes com menos de 3 meses, febre superior a 40ºC ou associada a manchas no corpo são sinais de alarme.
4. Choque e Anafilaxia
A anafilaxia é uma síndrome multissistêmica aguda e potencialmente fatal, causada pela liberação repentina de mediadores de mastócitos, frequentemente em resposta a alimentos ou drogas.
Sinais de Gravidade: O risco de vida na anafilaxia reside no edema de laringe (estridor), hipotensão arterial (choque) e broncoespasmo.
Conduta Inicial: A abordagem inicial envolve a remoção do estímulo desencadeante, monitorização, fornecimento de oxigênio suplementar e a administração imediata de epinefrina via intramuscular (IM) no vasto lateral da coxa, podendo ser repetida.
Choque Séptico: É uma resposta imunológica extrema a uma infeção. No choque séptico refratário a fluidos, é aconselhável usar epinefrina ou norepinefrina como drogas vasoativas iniciais. A meningococcemia é uma infecção grave que pode evoluir para choque séptico, sendo as petéquias um sinal clássico.
5. Atendimento a Traumas e Intoxicações
As emergências por trauma e intoxicação são frequentes, especialmente em crianças pequenas devido à sua curiosidade e falta de noção de perigo.
Traumatismo Cranioencefálico (TCE): É a principal causa traumática de morbimortalidade. Sua gravidade é classificada pela Escala de Coma de Glasgow (ECG).
Trauma Abdominal: É a terceira região anatômica mais afetada por lesões graves em crianças, sendo a maioria dos traumas contusos (acidentes veiculares e quedas).
Trauma Dentário (LDTs): Frequente em 2 a 6 anos. Dentes decíduos avulsionados não devem ser reimplantados. Lesões como avulsão ou fratura de raiz são consideradas de gravidade alta e requerem atendimento imediato.
Queimaduras: Crianças menores de cinco anos têm as maiores taxas de mortalidade devido à menor espessura da pele. Considera-se um grande queimado quando mais de 10% da superfície corporal está comprometida.
Intoxicações: Agudas e involuntárias são comuns, envolvendo fármacos (paracetamol, antidepressivos) e produtos domésticos. A intoxicação alcoólica e medicamentosa voluntária são destaques em adolescentes.
6. Suporte Avançado de Vida em Pediatria
A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) visa a manutenção da vida por meio do estabelecimento da via aérea, ventilação e circulação.
Ventilação de Resgate: Se a criança ou bebê tiver pulso palpável (FC ≥ 60 bpm) mas a respiração estiver ausente ou inadequada, deve-se fornecer uma ventilação a cada 2 ou 3 segundos (20 a 30 respirações por minuto).
Epinefrina (Adrenalina): Para ritmos não chocáveis (Assistolia e Atividade Elétrica Sem Pulso - AESP), é aconselhável administrar a dose inicial de epinefrina em até 5 minutos após o início das compressões torácicas para melhorar as taxas de sobrevivência.
Desfibrilador Externo Automático (DEA): Em crianças até 8 anos, deve-se utilizar um DEA com sistema atenuador de corrente ou eletrodos pediátricos, se disponíveis, aplicando menor energia.
Como um rio que precisa de uma nascente limpa e um curso bem mapeado, o cuidado pediátrico de emergência requer prevenção (nascimento seguro) e um sistema de atendimento rápido e preciso para garantir que o fluxo da vida continue com saúde e segurança.
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