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Anvisa atualiza orientação: não se deve clampear a sonda vesical de demora durante transporte, mobilização ou deambulação

Durante muito tempo, uma prática comum na assistência ao paciente com sonda vesical de demora era clampear a extensão do sistema de drenagem antes de transportar, mobilizar ou estimular a deambulação do paciente. A justificativa geralmente era evitar refluxo urinário, impedir vazamentos ou facilitar a movimentação.


Mas essa conduta passou a ser revista.


A atualização da Anvisa no Protocolo de Prevenção de Infecção do Trato Urinário relacionada ao uso de Cateter Vesical de Demora trouxe uma orientação importante: não clampear a extensão durante transporte, mobilização ou deambulação.


Essa mudança pode parecer simples, mas tem impacto direto na segurança do paciente, na prevenção de infecção do trato urinário associada ao cateter e na rotina da equipe de enfermagem.



Por que essa atualização é importante?


A sonda vesical de demora não deve ser vista apenas como um dispositivo para drenagem de urina.

Ela faz parte de um sistema fechado, contínuo e estéril, que precisa ser mantido com o menor número possível de manipulações.


Cada intervenção desnecessária no sistema aumenta o risco de falhas, contaminação, obstrução, refluxo, desconexão ou esquecimento de etapas importantes.


O clampeamento rotineiro durante transporte ou mobilização pode parecer uma medida de cuidado, mas pode gerar riscos. Um dos principais problemas é o profissional esquecer o sistema clampeado após o retorno do paciente ao leito ou após a deambulação. Quando isso acontece, a urina deixa de drenar adequadamente, podendo causar distensão vesical, desconforto, dor, extravasamento, refluxo e aumento do risco de complicações.


Por isso, a orientação atual é clara: o sistema deve permanecer pérvio, desobstruído e com fluxo contínuo.



O que muda na prática?


Na prática, a equipe não deve mais clampear a extensão da sonda vesical de demora apenas porque o paciente será transportado, mobilizado ou colocado para deambular.


Em vez disso, o cuidado deve ser direcionado para manter o sistema bem posicionado, sem dobras, sem tração e com a bolsa coletora abaixo do nível da bexiga.


Ou seja, a prioridade não é fechar o sistema. A prioridade é garantir drenagem contínua e segura.


Durante o transporte, a mobilização no leito, a transferência para cadeira, a saída para exames ou a deambulação assistida, a equipe deve observar se:


  • a bolsa coletora permanece abaixo do nível da bexiga;

  • o tubo de drenagem está sem dobras ou acotovelamentos;

  • não há tração sobre o cateter;

  • o sistema permanece fechado;

  • a bolsa não encosta no chão;

  • o fluxo urinário permanece livre;

  • o sistema está bem fixado e seguro.


Após a movimentação, também é essencial revisar todo o sistema. Esse é um ponto importante da atualização: depois de transportar ou mobilizar o paciente, a equipe deve verificar se a extensão está desdobrada, bem posicionada e funcionando adequadamente.



Por que não clampear?


O clampeamento interrompe temporariamente o fluxo urinário. Em algumas situações específicas, o clampeamento pode ser indicado por motivo clínico ou para procedimentos determinados, conforme protocolo institucional. Porém, como rotina para transporte, mobilização ou deambulação, ele não deve ser realizado.


A razão é simples: o sistema de drenagem urinária foi projetado para funcionar de forma contínua. Quando a drenagem é interrompida sem necessidade, o paciente fica exposto a riscos evitáveis.


Entre os possíveis problemas estão:


  • esquecimento da sonda clampeada;

  • retenção urinária;

  • distensão vesical;

  • dor e desconforto;

  • refluxo urinário;

  • vazamento;

  • maior manipulação do sistema;

  • aumento do risco de falhas assistenciais;

  • dificuldade na mensuração adequada do débito urinário.


Na assistência segura, o melhor cuidado nem sempre é “fazer mais”. Muitas vezes, é evitar intervenções desnecessárias.



O risco do cuidado automático


Essa atualização também chama atenção para um ponto muito importante: muitas práticas continuam sendo feitas porque “sempre foi assim”.


Na enfermagem, isso é perigoso.


Nem toda rotina antiga é uma boa prática atual. A assistência precisa acompanhar protocolos, evidências e recomendações atualizadas. O que antes era repetido como uma medida preventiva pode, com o avanço das recomendações, ser reconhecido como uma prática desnecessária ou até arriscada.


O clampeamento da sonda vesical durante transporte é um exemplo disso.


Durante anos, muitos profissionais aprenderam que, antes de levar o paciente ao exame ou antes de mobilizá-lo, era necessário fechar a extensão. Agora, a recomendação reforça outro caminho: manter o sistema aberto, fechado do ponto de vista estéril, abaixo do nível da bexiga, sem dobras e com fluxo urinário contínuo.



Qual é o papel da equipe de enfermagem?


A equipe de enfermagem tem papel central na manutenção segura da sonda vesical de demora. O cuidado não termina na passagem da sonda. Pelo contrário: grande parte da prevenção de complicações está justamente na manutenção correta do sistema.


Cabe à equipe avaliar diariamente a fixação, manter a higiene adequada, observar sinais de lesão, garantir o posicionamento correto da bolsa coletora, monitorar o aspecto e o volume da urina, registrar as informações no prontuário e comunicar alterações.


No transporte, na mobilização e na deambulação, esse cuidado precisa ser ainda mais atento. O paciente pode mudar de posição, o tubo pode dobrar, a bolsa pode subir acima do nível da bexiga ou o cateter pode sofrer tração.


Por isso, o olhar da enfermagem deve estar voltado para prevenção de danos.



Como transportar ou mobilizar o paciente com segurança?


Para transportar ou mobilizar o paciente com sonda vesical de demora, a equipe deve organizar o sistema antes da movimentação. A bolsa precisa estar fixada em local seguro, abaixo do nível da bexiga e sem contato com o chão. A extensão deve permanecer livre, sem dobras e sem compressão.


Durante a movimentação, é importante evitar tração no cateter e garantir que a bolsa acompanhe o paciente de forma segura. Ao final, a equipe deve revisar todo o sistema.


Esse cuidado simples evita falhas frequentes, como tubo acotovelado, bolsa mal posicionada, refluxo, desconexão e interrupção da drenagem.



Atenção: não clampear não significa descuidar


É importante deixar claro que não clampear a extensão não significa deixar o sistema “solto” ou sem vigilância.


Pelo contrário.


A recomendação exige mais atenção ao posicionamento, à fixação, ao fluxo e à segurança do sistema. O que muda é a conduta: em vez de fechar a sonda, a equipe deve garantir que ela continue drenando corretamente.


A lógica é manter o sistema fechado, estéril, contínuo e funcional.



E o exercício vesical antes da retirada?


Outro ponto que costuma gerar dúvidas é o chamado “exercício vesical”, prática em que a sonda era clampeada antes da retirada para “treinar” a bexiga.


A recomendação atual também desencoraja o fechamento prévio do cateter para essa finalidade. A retirada da sonda deve ocorrer tão logo seja possível, conforme avaliação clínica da necessidade de permanência do dispositivo, sem necessidade de clampeamento prévio como rotina.


Isso reforça uma ideia central: a sonda vesical de demora deve permanecer pelo menor tempo necessário, e sua manutenção deve ser constantemente reavaliada.



O que precisa ser atualizado nos serviços?


A mudança da prática exige mais do que uma orientação verbal. Os serviços de saúde precisam revisar protocolos, checklists, POPs e treinamentos da equipe.


É importante que todos entendam que a orientação não é apenas “não clampear”. A recomendação envolve uma cadeia de cuidados:


  • manter o sistema de drenagem fechado e estéril;

  • garantir fluxo urinário contínuo e desobstruído;

  • manter a bolsa abaixo do nível da bexiga;

  • evitar dobras e acotovelamentos;

  • não deixar a bolsa em contato com o chão;

  • evitar tração no cateter;

  • revisar o sistema após transporte, mobilização ou deambulação;

  • registrar alterações e intercorrências.


Essa atualização deve chegar à prática diária, especialmente nos setores onde o paciente é frequentemente transportado, como pronto-socorro, UTI, centro cirúrgico, hemodinâmica, unidades de internação e serviços de imagem.



Conclusão


A atualização da Anvisa reforça uma mudança importante na assistência ao paciente com sonda vesical de demora: não se deve clampear a extensão durante transporte, mobilização ou deambulação.


A conduta mais segura é manter o sistema fechado, estéril, abaixo do nível da bexiga, sem dobras, sem tração e com fluxo urinário contínuo.


Essa mudança mostra que a segurança do paciente depende de atualização constante da equipe. Na enfermagem, pequenos hábitos podem gerar grandes impactos. Por isso, revisar práticas antigas à luz das recomendações atuais é essencial para reduzir riscos, prevenir infecções e garantir uma assistência mais segura.


Mais do que repetir rotinas, a equipe de enfermagem precisa compreender o porquê de cada cuidado. E, nesse caso, o recado é claro: durante transporte, mobilização ou deambulação, não clampeie a sonda vesical de demora. Garanta o posicionamento correto e mantenha a drenagem contínua.

 

Referência:AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Modelo de Protocolo para a prevenção de infecção do trato urinário relacionada ao uso de cateter vesical de demora (ITU-AC). Versão 1. Brasília, DF: Anvisa, 2025.


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